
Em tempos politicamente corretos, a ideia, no mínimo, causaria arrepios. Mas em 1898, foi apenas uma solução rápida para abrigar problema: onde instalar a Família Real portuguesa? A resposta estava na Quinta de Boa Vista, a melhor e maior residência da cidade, prontamente doada a Dom João, o príncipe-regente, e sua Corte. Por trás do donativo, um dos maiores empresários da época, Elias Antônio Lopes, que fizera fortuna com o comercio de escravos, como conta o economista Carlos Lessa, presidente do BNDS em seu livro “O Rio de todos os Brasis”. “A doação da Quinta mostra a força do tráfico negreiro no Rio” diz Lessa no livro.
Com D.João vieram 15 mil portugueses que, acostumados ao fausto de Lisboa, inflacionaram a demanda por escravos, em 1882’, 46 o/o da população do Rio eram servis – em 1799 eram 21 o/o. Em 1850 entre as maiores fortunas da cidade, 39 eram de representantes do tráfico negreiro.
E para nobres e cortesãos, a presencia de serviçais exigia um certo refinamento. A tal ponto que, nos jornais cariocas de primeira metade do século XIX proliferam os anúncios de aulas de francês e de prendas domésticas destinadas aos escravos das boas famílias. Professores particulares ensinavam a ler, escrever, cozinhar, conduzir coches ou fazer jardins à moda de Paris. “Um escravo francófono e bom cozinheiro valia muito” diz Lessa no livro.
Rio de Histórias – Leticia Helena.
Gravura de Jean-Baptiste Debret
Domingo 19 de setembro de 2004
Gerardo Millone



