
SABINA e a REVOLUÇÃO das LARANJAS
Em frente ao portão da Escola de Medicina, que funcionava em dependência da Santa Casa da Misericórdia, ficava, de manhã à noite, sentada diante do tabuleiro carregado de laranjas, uma baiana de bom humor e corpo robusto chamada Geralda. Ela era conhecida como Sabina II, por ter sucedido a outra que exercia o mesmo trabalho.
Geralda aceitou a honra de ser chamada de Sabina, que era uma verdadeira instituição. A nova Sabina era apreciada, estimada e respeitada; acolhia maternalmente os futuros doutores, perdoava dívidas antigas e abria novos créditos. Mexer com a Sabina seria mexer com os estudantes.
Em certo dia de julho de 1889, passava pela escola um carro oficial e um grupo de estudantes, por brincadeira ou desafio, gritou um “Viva a República!” e atirou cascas de laranjas sobre o veículo. Na manhã seguinte, o subdelegado local, Jácome Azáli, expediu ordens expressas para que a Sabina fosse impedida de continuar vendendo laranjas à porta da escola — ordem que foi executada com grande aparato policial.
Os estudantes sentiram-se ultrajados. A Sabina não fizera coisa alguma; era inocente, não entendia de política e só queria vender as suas laranjas! Vários grupos se formaram e uma grande passeata foi realizada pela cidade, com músicas de realejo e laranjas espetadas nas pontas de paus e bengalas. Depois de percorrer todo o centro da cidade, os estudantes foram até a casa do subdelegado e lhe fizeram um enterro simbólico com coroas de capim, proferiram discursos e atiraram laranjas. Na manhã seguinte, o subdelegado Azáli demitiu-se e Sabina voltou a vender suas frutas, abrindo novos créditos aos seus “rapazes”, em um gesto de soberana.
O episódio foi registrado em jornais e revistas da época. A história de Sabina acabou inspirando um tango e uma peça de teatro musical de Aluísio Azevedo, tornando-se também um exemplo de como a união, a solidariedade e o afeto podem transformar pequenos acontecimentos em grandes símbolos.




